quinta-feira, 22 de março de 2012

Brasil Not 21/03/2012


Endividamento dos consumidores cai, mas indica queda no ritmo de compras



Os estímulos que o governo não para de injetar no mercado como forma de recobrar o consumo das famílias só surtirão efeito a partir do segundo semestre. É o que estima a Confederação Nacional do Comércio (CNC) diante dos dados da Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor divulgados nessa quarta-feira. Frente a março do ano passado, o percentual de pessoas que declararam possuir dívidas atuais - não necessariamente em atraso - caiu de 64,8% para 57,8%. O índice está diretamente atrelado à disposição das pessoas para as compras, e consequentemente a incorporação de novas contas ao orçamento. Quanto menor o avanço, maior a contenção dos gastos. Frente a fevereiro, o avanço foi considerado baixo, saindo de 57,4%.

Para Deborah Athayde a redução de juros é boa para troca de carro ( Cristina Horta/EM/D.A Press)
Para Deborah Athayde a redução de juros é boa para troca de carro
"Esperávamos uma alta maior entre fevereiro e março, já que em anos anteriores as pessoas se endividaram mais neste período", observa a economista da CNC, Marianne Hanson. "Sem contar que houve incentivos para aquisição de bens de consumo duráveis, como para linha branca, que poderiam ter impulsionado a contratação de dívidas", acrescenta a especialista. As manobras do governo, que incluem redução dos juros básicos da economia, ainda revelam resultados sutis. "A compra de eletrodomésticos, por exemplo, ainda não foi sentida no processo de comprometimento da renda", analisa Marianne. As mudanças implantadas devem refletir no varejo entre seis e oito meses. "No segundo semestre pode haver uma reversão com a elevação das vendas no comércio e consequente aumento do endividamento", avalia Marianne.

O fato de boa parte da renda já estar comprometida, especialmente com a aquisição de produtos de alto valor agregado, reforça a cautela dos consumidores. A pesquisa da CNC revela que, entre os endividados, 25,5% têm mais de 50% dos rendimentos destinados ao pagamento de dívidas e outros 50,6% direcionam entre 11% e 50% do salário para quitar débitos. Menos de um quinto das pessoas deve menos que 10% dos proventos. "Existe um acúmulo de dívidas do passado, feitas com produtos duráveis, como automóveis e eletroeletrônicos, cujo prazo de pagamento é dilatado", avalia a gerente de economia da Federação do Comércio do Estado de Minas Gerais (Fecomércio), Silvânia Araújo, que também espera uma mudança com a retomada da disposição para a contratação de crédito no segundo semestre.

Na contramão, o índice de consumidores que declaram não ter qualquer dívida passou de 34,6% em março de 2011 para os atuais 40,9%. A dentista Deborah Athayde reforça as estatísticas. Ela planeja trocar o carro e reconhece que a retração dos juros pode ser um bom estímulo, apesar de ainda dar preferência para as compras à vista. "Podemos avaliar diante de juros mais baixos", afirma a consumidora, que se considera extremamente controlada. Mesmo perfil da aeroviária Neuza Chaves, que garante não sofrer influências das políticas do governo para ir às compras. "O negócio é ter o dinheiro na mão."

Problema maior na baixa renda

Neuza Chaves já prefere ficar sem dívidas, "com o dinheiro na mão"
A parcela de famílias inadimplentes fechou este mês em 21,8%, contra 20,5% em fevereiro de 2012 e 23,4% em março de 2011. O resultado foi integralmente motivado pelo comportamento de consumo das famílias com faixa de renda inferior a 10 salários mínimos, que interrompeu uma sequência de quatro meses de queda. Nesta parcela da população, o percentual de famílias com dívidas alcançou 58,6% neste mês ante 58,4% em fevereiro e 66,5% em março de 2011. Para quem ganha acima de 10 salários mínimos, os números são menos expressivos, com 50,6% de endividados neste mês.

O tempo médio de atraso das contas está em 59,4 dias, ligeiramente superior aos 58,6 dias observados em março de 2011. Ainda que o volume de maus pagadores tenha aumentado, a capacidade de pagamento seguiu o mesmo percurso. Enquanto em 2011, 8,4% dos entrevistados declararam não ter condições de quitar suas dívidas em atraso, o percentual agora é de 6,7% das pessoas. O resultado é o menor para toda a série histórica, iniciada em janeiro de 2010. (PT)

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