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Paciência é a lição dos pais franceses
EUA têm enxurrada de livros com foco em modelo de educação de outros países
Brasil Not 24/03/2012
FOTO: ANGELO PETTINATI
Comprometimento. Estimular a responsabilidade nos filhos é uma das receitas da família Ishitani
Lançado este mês nos Estados Unidos e na Inglaterra, o livro "Bringing Up Bébé: One American mother discovers the wisdom of French parenting" ("Criando o Bebê: Uma mãe americana descobre a sabedoria da educação francesa", em tradução livre) fez muito barulho lá fora, tendo sido objeto de debate na mídia daqueles países. Apesar de ainda não haver data para publicação no Brasil (por enquanto, há apenas a versão em inglês à venda em livrarias online), o ruído chegou até aqui. Nele, a autora Pamela Druckerman, jornalista americana que viveu dez anos na França, conta, maravilhada, como conseguiu domar os três filhos observando e reproduzindo a conduta típica dos pais franceses.
Mas a tal sabedoria dos pais franceses badalada pela autora não traz tantas novidades, uma vez que toca em aspectos defendidos há tempo por educadores, segundo especialistas ouvidos pelo Pampulha. Porém, há um ponto a se destacar, segundo a psicóloga e terapeuta infantil Márcia Moreira Veiga: "Ela coloca a paciência como um dos pilares da educação e isso, raramente, a gente ensina. Vivemos em um mundo acelerado, tudo é muito rápido, tudo é pra ontem. Isso tem gerado uma ansiedade muito grande nas crianças. O exercício da paciência talvez seja o maior desafio para elas", sublinha. Conviver com pessoas mais velhas, que vêm de um outro ritmo de vida - como os avós, é um caminho possível, ela sugere.
Independência
Chama atenção também no livro certa independência das crianças francesas. De acordo com Druckerman, elas brincam sozinhas e não interrompem os pais a todo momento em busca de atenção, ao passo que os pais também não fazem dos filhos o centro exclusivo de suas vidas. Para a pesquisadora da UFMG Laura Guimarães, isso pode ter ligações com o desenvolvimento do feminismo na França e as mudanças que ele provocou no comportamento materno. "As francesas estão há muito tempo tentando desconstruir esse mito da valorização do sacrifício materno, da mãe como aquela que deixa de fazer tudo para se dedicar ao filho e, com isso, a criança tem que ter uma vida mais independente. A mão não fica mimando a criança o tempo todo".
A sabedoria dos pais franceses
Editoras se voltam ao tema
Pais e mães do mundo, uni-vos. Parece ser este o recado que o mercado editorial está dando lá de fora, dos EUA. Cinco livros que abordam métodos de educação dos filhos estão chegando às livrarias. Em comum, eles guardam o fato de focarem nas virtudes dos modelos de criação de uma determinada cultura.
Depois de é "Bringing Up Bébé - One American mother discovers the wisdom of french parenting", está por vir nos próximos meses mais um bom número de publicações sobre o tema. "Incredible Incas: Why The Best Moms in the World Come from La Paz" ("Incríveis Incas: Porque as Melhores Mães do Mundo São de La Paz"), da psicóloga infantil Atahualpa Vargas, da Bolívia, busca demonstrar como a rigidez moral das mães bolivianas, combinada à grande devoção às crianças, resulta em uma educação bem-sucedida. Na contramão vem "How The Welsh Invented Modern Motherhood" ("Como Os Galeses Inventaram A Maternidade Moderna"). O professor Addfwyn Griffith, da Universidade de Glamorgan-Aberystwthy, no País de Gales, sugere que o segredo dos galeses é não agir de maneira que as crianças se sintam especiais.
Ainda restam os lançamentos de "Super-moms from Fiji!" ("Super-mães de Fiji!") e "Matriarchs of the Yurt" ("Matriarcas de Yurt"). O primeiro argumenta que o hábito das crianças brincarem ao ar livre na ilha do Pacífico evita que as mães se estressem na busca por formas de entreter seus filhos, o que garante a calmaria do ambiente doméstico. Já o segundo, fazendo referência no título a um tipo de moradia utilizada na Mongólia, traz o relato de uma mãe alemã que criou os trigêmeos naquele país asiático. Lá, constatou que a ausência do homem, que passa longos períodos trabalhando longe de casa, elimina possíveis tensões no lar.
Para repensar
A moda de livros com esse tipo de abordagem começou no ano passado com o polêmico "Grito de Guerra da Mãe-Tigre (Intrínseca), no qual a sino-americana Amy Chua descreve os rígidos princípios chineses através dos quais controla as filhas, tais como a exigência de nota máxima (9 é considerada por Chua uma nota ruim). Abraçando de vez todas as culturas, a norte-americana Mei-Ling Hopgood relata em "How Eskimos Keep Their Babies Warm" ("Como os Esquimós Mantêm Seus Bebês Aquecidos"), também lançado no ano passado, o que aprendeu com pais e mães de todo o mundo nas viagens que fez da Argentina à Tanzânia ao longo da infância do filho.
A pesquisadora da UFMG Laura Guimarães, que estudou em seu doutorado representações de maternidade e paternidade, considera que livros desse tipo normalmente são baseados em generalizações, mas vê algo de natural no olhar para o outro. "O acesso que temos hoje a outras culturas gera curiosidade, conflito e conhecimento. Você observa o outro e pensa: na minha família sempre foi assim e as pessoas fazem de outra forma e funciona. É um jeito de repensar a nossa maneira de fazer as coisas".
A sabedoria dos pais franceses
Palavras mágicas - Há quatro palavras básicas que as crianças devem sempre usar: "oi", "tchau", "obrigado" e "por favor". Não é só uma questão de educação, mas também uma forma de evitar o egoísmo e lembrar as crianças da existência das outras pessoas.
Liberdade e autoridade - Os pais franceses buscam equilíbrio entre impor limites e dar liberdade. A metáfora de um quadro é usada pela autora para explicar a ideia: a moldura indica os limites estabelecidos pelos pais, mas dentro dela há liberdade para a criança
Não ter medo de dizer não - É preciso usar a palavra quando necessário para que os filhos aprendam desde cedo a lidar com frustrações. Ao mesmo tempo, é uma forma de mostrar às crianças sobre quem está no comando da situação
Paciência - Gourmets por excelência, os franceses utilizam a tradição à mesa, marcada por refeições longas, com mais de um prato, para ensinar os pequenos a serem pacientes.

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