sábado, 24 de março de 2012

Brasil Not 24/03/2012
 
 
NOVOS VELHOS .
A arte de viver livre de estereótipos
No cotidiano e no palco, idosos rompem estigmas negativos sem idealizar a velhice
 
 
 
FOTO: THIAGO THEO/DIVULGAÇÃO
Pioneiros. O Grupo Terceira Dança, de BH, é um caso singular de companhia de dança contemporânea composta por idosos
THIAGO THEO/DIVULGAÇÃO
Pioneiros. O Grupo Terceira Dança, de BH, é um caso singular de companhia de dança contemporânea composta por idosos
Na véspera da volta às aulas, Alfredo de Paula Neves, 94, está animado pelo reencontro com colegas e professores de faculdade. Já para os bailarinos da companhia Terceira Dança, com idade média de 62 anos, a expectativa se volta para as apresentações que farão em um festival de arte contemporânea.
Seja no cotidiano ou no palco, esses idosos belo-horizontinos já experimentam possíveis mudanças comportamentais vislumbradas para as próximas décadas, acertando o passo com a revolução biotecnológica que promete para os brasileiros uma expectativa de vida de 73,1 anos, de acordo com o Censo 2010.
Em um país cuja base da pirâmide etária só começou a estreitar há três décadas, os novos velhos convivem com o estigma negativo do idoso incapaz de aprender, conservador, dependente e passivo.
Ao romper com estereótipos, no entanto, existe o risco de a nova imagem da velhice refletir o extremo oposto da idealização. "Particularmente, penso que expressões como ‘melhor idade’ têm função de consumo e afastam a velhice de sua condição real", defende Suzana Carielo da Fonseca, coordenadora do programa de pós-graduação em gerontologia da PUC-SP, um dos primeiros a surgir no Brasil, há 15 anos.
O caminho para não condenar nem mitificar a velhice passa por considerar essa etapa da vida como qualquer outra, com suas limitações e compensações. "Estamos acostumados a enfatizar as perdas, sobretudo do ponto de vista orgânico. Mas, como qualquer outra fase, há os aspectos psicológico, social e cultural. Para viver plenamente essas condições humanas, contemplando desejos e necessidades, a velhice precisa ser encarada pelo viés da produção de sentidos", defende.
SUBJETIVIDADE
Embora na esfera das políticas públicas faça sentido encarar os idosos como um grupo, a antropóloga Elisabeth Frohlich Mercadante, também professora na PUC-SP, lembra que, no dia a dia, as classificações etárias não devem se sobrepor à subjetividade. "O bacana não está em fazer algo para parecer jovem ou obedecer qualquer padrão, e sim porque, do jeito que se está, se é capaz de fazer isso", explica.
Longe de querer ser um exemplo, Alfredo leva a vida fazendo aquilo de que gosta. "Sou muito personalista. Faço as coisas não porque fulano falou que é bom, mas experimento para decidir se me agrada ou não".
Para ele, preconceito não é empecilho. "A gente tem de saber conviver com isso. Se uma porta se fecha, bato em outra".
Em sua rotina cheia, que, em período letivo, além das aulas, inclui atividades como musculação e coral, a dança tem papel especial. "Não só no meu estado de saúde. Para dançar, é preciso adquirir autoconfiança, pois não dá para ter medo de ser criticado. Além disso, a música faz bem ao espírito. Não se vê dançarino triste, não é?", conclui.
Fato
- Aos 73 anos, Alvin Straight, ao saber que seu irmão Lyle estava doente, partiu ao seu encontro a bordo de um trator, para desfazer um antigo desentendimento.

- A posição social dos velhos em suas comunidades varia ao longo da história; a fixação propiciada pela agricultura, por exemplo, foi favorável a essa faixa etária
Filme- A jornada de Alvin, que se passou em 1966, foi adaptada para o cinema por David Lynch mais de 30 anos depois e pode ser vista em "A História Real".

- Uma tradição segundo a qual japoneses idosos isolavam-se numa montanha sagrada para morrer é retratada em "A Balada de Narayama", de Shohei Imamura
Primeiros passos
No território das artes, o grupo Terceira Dança vem dando passos importantes para renovar a imagem da velhice. É um caso singular no cenário nacional de companhia de dança contemporânea composta, em sua maioria, por bailarinos idosos.
Formado em 2008, a partir de uma oficina do Programa Arena da Cultura, da Prefeitura de Belo Horizonte, o grupo reúne integrantes de 45 a 80 anos.
Theresa Dias da Silva, 78, é uma das bailarinas mais velhas. Chegou à oficina preparada para aulas de dança de salão. Hoje, impressiona com seu domínio da técnica de contato-improvisação. "São movimentos instantâneos, inventados por mim", explica.
Espetáculo
Trazendo no currículo apresentações nas duas últimas edições do FID (Fórum Internacional da Dança), o Terceira Dança volta ao cartaz com o espetáculo "Processo" entre os dias 3 (sexta) e 5 (domingo), na programação do Verão Arte Contemporânea.
O espetáculo é construído a partir das experiências de vida dos bailarinos. "Mesmo tendo passado por exercícios de consciência corporal e preparação física, a pesquisa de criação sempre explorou um lugar mais subjetivo", afirma a coordenadora geral Marcelle Louzada.
Fora do palco, o grupo luta por reconhecimento profissional, como adequações nos exames para obtenção do DRT (registro profissional), junto ao Sated-MG (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de Minas Gerais).

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